Menu fechado

“O amor é como fazer as pazes com a gente”, reflete Mariana du Bois – Revista Crescer | Mariana du Bois

"O amor é como fazer as pazes com a gente", reflete Mariana du Bois - Revista Crescer | Mariana du Bois

Mariana du Bois e a filha, Francisca (Foto: Arquivo Pessoal)

Dia desses você se chateou com um dos seus melhores amigos, filha, e veio me contar carregando um emaranhado de sentimentos.
Você não estava exatamente triste, estava confusa.
Ao mesmo tempo que narrava o episódio passagem por passagem, derramava desencanto no seu tom, procurando achar onde estava o buraco, a falha, porque foi que ele quis te machucar.
Sei que as coisas mais difíceis de falar são aquelas que a gente não entende. E é mesmo difícil entender o desafeto, o desamor.

+ “Entendi que ser mãe não tem fim. Mesmo que nossos filhos sumam no mundo”, reflete Mariana du Bois

Houve uma pausa.

Porque pra mim também é difícil ainda, filha.
Ainda mais quando são vocês as vítimas, você e o Zeca.
E ainda mesmo quando são vocês os culpados.
Porque sei que mesmo que vocês entendam de amor, vai haver raiva, por mais que dominem o afeto, vai haver dureza.

Houve uma pausa.

Porque existe raiva e dureza em mim também. Eu sei que você sabe.

Não seja amiga de quem te machuca, não goste de quem não te cuida, não acarinhe quem não sabe dar carinho. O afeto não tem essa faceta, essa cara ruim, o amor não pode nunca receber dor em troca, minha filha… então, prive do seu amor quem não te ama, não destine seu afeto a quem te machuca, dane-se quem não sabe gostar de você.
E um desfecho sensação: prefiro que você machuque a ser machucada.

+ “Experiência violentamente transformadora”, escreve Mariana du Bois sobre maternidade

Um respiro pousou na frustração delirante. Reflexo que tapou a boca da monstra condenável que se diz leoa-mãe dentro de mim.

É mesmo muito contraventor o tipo de ser que uma mãe, no caso eu, está pronta para encarnar.
Desenvolvi uma aptidão primorosa para o descompasso na cadencia da evolução. A espiritual
Competência pra ser tipo de gente dotada de passionalidade quase vergonhosa.

E, antes que eu me esqueça filha, desvario é o nome disso. Estado do coração quando fica de mal com a cabeça. Cavalo indomável.

Houve uma pausa.

Coisa como um adestramento. Trégua entre cabeça e coração para conseguir te dizer que os melhores amigos as vezes machucam uns aos outros, que as pessoas não sabem ser boas o tempo todo, nem você, nem eu. Eu sei que você sabe.

Acontecem uns tropeços e o bem as vezes nos escapa.
E nossa grande aventura tentar cuidar disso, filha… perdoar o mal e exercitar o bem.

É verdade que o mal, às vezes, é só uma falta de praticar o bem.
Ser bom em algo está na nossa mania de insistir.
Lembra da estrela que você vem treinando na ginástica?
Mesma coisa. A gente aprende o afeto sendo afetuoso.

+ “Amamentação é êxtase. Pacto com o universo. Mas virar alimento é servidão”

Um monte de palavra só pra te falar que o amor vale mais sempre, Francisca. Que ele é o coringa, a melhor saída.
E essa é uma afirmação como aqueles pesadelos em que eu acordo sem ar; mas prefiro que você seja quem sofre porque gosta, quem exibe afeto sem medo, do que quem priva o outro do amor.

Podemos até sentir pena de quem não sabe gostar da gente, porque tem gente que só gosta mesmo de si.
Mas se tem coisa que aprendemos com o coração aberto é que, suportar a falta de afeto é compaixão, mas não vivenciar o afeto é solidão.

Você nem sempre vai encontrar amor onde deixa, minha filha. Mas, acredite, vai deixar tudo transformado.

Inclusive você, porque o amor é como se disséssemos sim pra nós mesmos, como fazer as pazes com a gente sempre.

Fica tudo bem.


Mariana du Bois (Foto: Divulgação)

MARIANA DU BOIS é atriz, mãe de Francisca, 6 anos, e Zeca, 2, e escreve sobre maternidade. “Agora eu era a mãe, era a rainha e era também a bruxa. E pela minha lei, filho meu será sempre feliz”

Gostou da nossa matéria? Clique aqui para assinar a nossa newsletter e receba mais conteúdos.

Gostou da nossa matéria? Clique aqui para assinar a nossa newsletter e receba mais conteúdos.

Artigo Original

Deixe uma resposta