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‘Não vejo como fazer contenção’, diz pesquisador

‘Não vejo como fazer contenção', diz pesquisador

É angustiante a passividade com que pesquisadores e órgãos ambientais se veem resignadas a lidar com o maior desastre com petróleo no mar, em extensão, da história do País. É triste. É revoltante. Um material mais viscoso – é petróleo cru e não óleo – para o qual as simulações tradicionais do Espírito Santo não estão preparadas. Um vazamento que não se sabe onde começou e não se tem precisão sobre como vai continuar se dispersando. 

“Não vejo como montar uma contenção de um material que você não sabe de onde vem. É uma área absurdamente grande e não se consegue detectar por satélite”, comenta Heitor Evangelista, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e membro da Rede Rio Doce Mar. 

Por meio do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais (LARAMG) da UERJ, Evangelista instalou, em agosto de 2016, “armadilhas de sedimentos” dentro do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, para monitorar o avanço da lama da Samarco/Vale-BHP. Com elas, confirmou a presença de metais presentes nos rejeitos tóxicos das mineradoras no Parque Nacional, dado que foi encaminhado ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para basear a emissão de mais uma multa às empresas. 

Agora, o equipamento também poderá ajudar a detectar os impactos do petróleo sobre o santuário marinho. As armadilhas estão instaladas a cerca de dez metros de profundidade, onde ficam os corais. “Teremos o antes, o durante e o depois, e saber se foram atingidos ou não”. 

A tragédia, afirma o professor, deixa claro que o mar brasileiro é mal monitorado. “Uma quantidade maior de boias permitiria modelos de dispersão mais precisos”, opina. Os modelos atuais não permitem afirmar a velocidade com que o material avança. E ele só aparece quando chega na praia, ficando submerso durante a expansão no mar. 

Comitê de Crise 

Maior centro de biodiversidade marinha de todo o Atlântico Sul, o Banco de Abrolhos tem início no norte do Espírito Santo, na foz do Rio Doce, tendo o parque nacional, na Bahia, como sua principal unidade de conservação. 

O temor de que a contaminação atinja os corais e o litoral capixaba fez a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama) coordenar a criação, na tarde dessa segunda-feira (21), de um Comitê de Preparação da Crise, formado por representante da Marinha, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Seama, que fará a coordenação dos trabalhos. 

Os gestores municipais de Linhares, São Mateus e Conceição da Barra também estão mobilizados junto ao Comitê, que também tem apoio de grupos de trabalho com diferentes temáticas, como: Institucional/Municípios, Técnico, Comunicação, Segurança/EPI’s, Fauna, Unidades de Conservação e Logística.

A criação do Comitê aconteceu em uma reunião de onde também participaram o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), a Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh), a Capitania dos Portos e a Defesa Civil. 

Uma visita à Bahia está sendo agendada, para representantes da Seama e do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), para verificação in loco dos procedimentos de governança e das atividades práticas de recuperação e limpeza das praias e do manuseio da fauna oleada, entre outras.   

Segundo a Marinha, o trabalho de monitoramento e redução de danos decorrentes do avanço do petróleo sobre o mar do Nordeste brasileiro teve início no dia dois de setembro. Já foram retirados 900 toneladas de material das praias, ao longo de mais de 200 localidades de 78 municípios em nove estados nordestinos, tendo chegado Morro de São Paulo, na Bahia. 

A Marinha informou, nesta terça-feira (22), que as investigações sobre a origem do derramamento de petróleo se concentram agora em 30 navios, oriundos de dez países diferentes. 

Conforme publicado na Agência Brasil, o comandante acredita que a maior probabilidade é que o vazamento tenha partido de um navio irregular, chamado de dark ship. Já se sabe que o petróleo não foi extraído no Brasil e sim na Venezuela. Isso não significa, assegurou o comandante da Marinha, Ilques Barbosa, “que houve em algum momento, e não houve isso, envolvimento de qualquer setor responsável, tanto privado quanto público, da Venezuela nesse assunto”, disse.

O trabalho de investigação da Marinha conta também com o apoio da Polícia Federal. Além disso, outros órgãos locais atuam na limpeza das praias, além de voluntários. Já o governo federal tem sido sistematicamente criticado por omissão nas operações contra o derramamento de óleo no Nordeste.

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