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Como fazer uma história Star Wars: por trás do processo criativo da Lucasfilm

Como fazer uma história Star Wars: por trás do processo criativo da Lucasfilm

O ano é 2019, e “Star Wars” está em todos os lugares. Nos cinemas, na televisão, nas prateleiras de livrarias e lojas de quadrinhos. Até seu próprio parque temático a saga de George Lucas agora tem – Galaxy’s Edge, no complexo da Disneyland em Anaheim, Califórnia. Com tantos meios diferentes e lançamentos muitas vezes simultâneos, manter controle sobre os rumos que este universo toma a cada obra não é tarefa fácil.

Com o lançamento de “A Ascensão Skywalker” agendado para dezembro e os primeiros materiais promocionais sendo divulgados – entre trailer, matérias em revistas e mais -, muita especulação começa a pairar entre os fãs. O Imperador Palpatine irá retornar? Saberemos o passado de Rey? E que Skywalker é esse que irá ascender? Há, principalmente, o receio de que ocorra um retcon dos acontecimentos do filme anterior, “Os Últimos Jedi“, polêmico justamente por quebrar paradigmas dentro da saga.

Para compreender melhor qual a real possibilidade disso tudo acontecer, é preciso olhar para quem coordena os rumos desse universo…

O futuro está sempre em movimento, difícil de ver…

Uma galáxia de conteúdo

Em 2012, a Lucasfilm, empresa responsável pela saga e demais criações de Lucas, foi adquirida pela Disney em uma das aquisições mais caras da história do entretenimento. Kathleen Kennedy, um dos maiores nomes da indústria e produtora de diversas obras-primas do cinema, se tornou a presidente e, a partir daí, a história de “Star Wars” rompeu completamente com o que fora até então.

O chamado Universo Expandido, uma série de histórias que, bem, expandiam o universo da saga para além dos filmes, foi rebatizada de Legends e perdeu seu status canônico. Apenas os seis filmes de George Lucas, a série de animação “The Clone Wars” e o arco dos quadrinhos “Darth Maul: Son of Dathomir” se mantiveram na nova cronologia oficial da Disney. Diversas obras clássicas e amadas pelos fãs, como a Trilogia “Thrawn”, a série literária “Legacy of the Force” e o desenho “Clone Wars” (do criador de “Laboratório de Dexter” e “Samurai Jack“, Genndy Tartakovski; não confundir com a animação) ficaram de fora.

Este corte ocorreu por uma razão simples: anteriormente, todo material lançado de “Star Wars” era ajustado em graus de canonicidade, dado que sua produção acontecia de forma independente da Lucasfilm. Primeiro, os filmes da saga cinematográfica não poderiam ser contraditos. Em seguida, vinham as séries de TV. A partir daí, as obras deveriam manter uma continuidade com o que fora estabelecido previamente e obter o aval de Lucas. Mas mesmo assim muito material de qualidade já não era considerado oficial, como os quadrinhos publicados pela Marvel Comics no fim da década de 1970 e os livros “The Adventures of Han Solo“.

Para colocar ordem na casa, a decisão da Lucasfilm foi radical: com as exceções já mencionadas, seria canônico apenas o que viesse a ser publicado após a aquisição pela Disney. Não haveriam mais “graus de canonicidade”, e sim histórias dentro de uma mesma continuidade e ambientadas no mesmo universo. Foi criado então o Lucasfilm Story Group (LSG), composto por profissionais responsáveis pela manutenção deste novo formato. São pessoas que já trabalhavam com a saga anteriormente e que têm profundo conhecimento e apreço por ela, como Pablo Hidalgo (antigo curador do portal oficial da saga) e Leland Chee (conhecido como Guardião do Holocron e enciclopédia viva de tudo relativo à saga).

O papel deste grupo é compreender todas as novas obras publicadas oficialmente e garantir a continuidade de todas no mesmo universo. Isso significa que tudo é feito por eles? De forma alguma. Na prática, a função do LSG é apenas estabelecer os limites dentro dos quais novos cineastas, autores e artistas podem criar novos conteúdos para a franquia. Seu papel se assemelharia ao de consultores, dando total liberdade para cada criador desenvolver suas próprias histórias.

Apesar de o termo ‘Story Group’ dar a entender que eles estão ditando as histórias, geralmente não é esse o caso. Na maioria das vezes, autores e cineastas que são contratados para trabalhar com propriedades de ‘Star Wars’ têm a oportunidade de desenvolver suas próprias histórias e ideias. Enquanto o fazem, eles trabalham em conjunto com o Story Group para garantir que essas histórias sejam autênticas de ‘Star Wars’. Por exemplo, Darth Vader não dança nem nada do tipo.” – Germain Lussier (Slashfilm, 2015).

Fazendo um filme nesse universo

Ao se tornar um contador de histórias no universo “Star Wars”, uma coisa deve ficar clara: você está trabalhando para a Lucasfilm. Estas histórias terão seu nome, mas pertencerão a ela, e isso significa que devem ser produzidas de acordo com certos padrões que o resultado final também deverá respeitar.

O primeiro e mais importante é, naturalmente, a continuidade dentro do universo já existente. “Star Wars” é, sempre foi e sempre será maior que os cineastas que contam suas histórias, e isso deve ser assimilado. J.J. Abrams já deixou claro seu comprometimento com a causa ao afirmar que “A Ascensão Skywalker” será a culminação não de três, mas de nove filmes, e Rian Johnson frequentemente tem que reiterar o seu próprio:

“Talvez você tivesse que ter recebido restrições. Sabe, quando se trabalha com um mundo já estabelecido. A Marvel já sabe como isso funciona e eles estão indo muito bem”.

“Sim, obviamente eu tive que trabalhar dentro do universo, em todos os sentidos. Isso é uma premissa.”

Mas não basta afirmar, é preciso mostrar esse comprometimento no dia a dia das produções. Johnson, por exemplo, teve total liberdade para desenvolver “Os Últimos Jedi” de acordo com o que julgava ser o curso adequado para os personagens, e ainda assim acompanhou de perto a produção de “O Despertar da Força” para garantir que seu trabalho faria sentido. Abrams já havia antecipado em 2015:

“O roteiro de ‘VIII’ está escrito. Certamente ele será reescrito diversas vezes, eles sempre são. Mas o que Larry (Kasdan, co-roteirista de ‘O Despertar da Força’) e eu fizemos foi estabelecer alguns pontos chave, como relações e conflitos. E sabíamos para onde certas coisas iriam. Tivemos reuniões com Rian e Ram Bergman, produtor de ‘VIII’. Eles acompanhavam diariamente as gravações do nosso filme.”

Não apenas é recomendável que os cineastas trabalhem em conjunto, mas é algo que faz parte da própria cultura da Lucasfilm enquanto empresa. Isso é algo que não foi implementado pela Disney ou por Kathleen Kennedy, mas pelo criador em pessoa, George Lucas. Tendo sofrido imensas dificuldades para garantir que “Uma Nova Esperança” chegasse aos cinemas em 1977, a continuidade de “Star Wars” sempre foi uma questão pessoal para ele. Foi para isso que ele fundou a Lucasfilm e todas as respectivas divisões – Industrial Light and Magic, Skywalker Sound, etc. Esta cultura foi mantida por Kennedy após a aquisição e é respeitada até hoje, como evidenciou Abrams, ainda em 2015:

“Queríamos que eles fizessem parte do processo para tornar a transição para seu filme o mais suave possível. Mostrei a Rian uma versão inicial do filme, pois sabia que ele estava reescrevendo e preparando. E sendo produtor executivo de ‘VIII’, eu preciso que esse filme seja muito bom. Segurar informações não ajuda ninguém, principalmente os fãs. Então somos os mais transparentes possível.”

Nesse sentido, o risco de um retcon radical em “A Ascensão Skywalker” em relação aos eventos de “Os Últimos Jedi” é baixíssimo, visto que tanto Abrams quanto Johnson conheciam bem os projetos um do outro. Por mais que o primeiro possa ter afirmado que não vimos tudo sobre o passado de Rey, sua declaração não dá a entender um retcon.

A transparência da qual Abrams fala diz respeito à troca de informações, obviamente. Afinal, outra qualidade essencial para qualquer um que se disponha a trabalhar para a Lucasfilm é a capacidade de manter segredo do público até a hora certa.

Johnson, por sua vez, não teve a oportunidade de trabalhar tão de perto com a equipe que estava desenvolvendo “Episódio IX” (à época ainda sem título). O diretor definido para o capítulo final da saga, Colin Trevorrow, acabara de ser demitido da franquia, evidenciando que nem todas as decisões tomadas na Lucasfilm são as melhores ou definitivas. Afinal, é uma empresa como todas as outras.

Quando as escolhas não dão certo

A imagem acima traz quatro diretores que começaram projetos em “Star Wars”, mas que nunca vieram a terminá-los. Da esquerda para a direita: Gareth Edwards (“Rogue One: Uma História Star Wars“), Phil Lord e Chris Miller (“Han Solo: Uma História Star Wars“) e Colin Trevorrow (“Episódio IX“).

No mais célebre destes casos, quando a dupla Lord e Miller foi demitida de “Han Solo“, muita gente passou a questionar o comando de Kathleen Kennedy dentro da Lucasfilm. A decisão pegou todos de surpresa – não é todo dia que se vê os diretores de um projeto deste porte serem demitidos já durante as gravações.

Em entrevista à revista Variety posteriormente, boa parte do elenco e equipe do filme falou sobre o assunto, e ficou evidente que o estilo da dupla não se encaixava nos parâmetros de Kennedy, com muitas decisões sobre a história sendo tomadas no próprio set. O problema não era a intenção de inovar, mas de fazer isso sem o aval prévio da alta cúpula da Lucasfilm. Lord e Miller, no entanto, não foram o primeiro caso de desentendimento entre a produtora e os diretores em um “Star Wars”, e também não seria o último.

Rogue One: Uma História Star Wars” chegou aos cinemas em dezembro de 2016. Apesar do sucesso de público e crítica, uma coisa chamou a atenção dos fãs: muitas das cenas presentes nos trailers não estavam na versão final. Jyn Erso (Felicity Jones) encarando um TIE Fighter, o grupo de rebeldes correndo pelas praias de Scarif com os planos da Estrela da Morte em mãos… Nada disso. Poucos dias depois da estreia, Ben Mendelsohn, intérprete do vilão Orson Krennic, revelou haver uma versão do filme “com diferenças enormes em, diria, 20 ou 30 cenas“.

O filme que vimos no cinema, portanto, não é o mesmo que foi finalizado por Gareth Edwards. Em abril de 2018, pela primeira vez ficou claro que a versão de Edwards não havia agradado a Lucasfilm, que optou por chamar Tony Gilroy meses antes da estreia para comandar refilmagens e “consertar” o filme. Apesar de não falar sobre o assunto, ele revelou que a situação não era boa: “estava uma bagunça que, na verdade, era bem fácil de resolver. Você vê a história e, gente, é só olhar. Todo mundo vai morrer. Então é um filme sobre sacrifícios“.

Já Colin Trevorrow, para evitar novos transtornos, sequer passou da etapa de pré-produção em “Episódio IX“. Em setembro de 2017 ele foi desligado do projeto, antes mesmo da estreia de “Os Últimos Jedi“. Seu pitch inicial para a conclusão da saga havia agradado não apenas Kathleen Kennedy, mas também o presidente e o CEO da Disney, Alan Horn e Bob Iger. De acordo com o Wall Street Journal, no entanto, conforme as primeiras versões do roteiro foram chegando ficou claro que Trevorrow não era o nome ideal para o projeto, e a cúpula da Disney optou por chamar J.J. Abrams para concluir a trilogia que ele mesmo havia começado.

Há ainda o peculiar caso de Josh Trank. Após dirigir o excelente “Poder Sem Limites“, ele se tornou um nome disputado na indústria e foi contratado para dirigir um spin-off sobre ninguém mais, ninguém menos que Boba Fett. Mas o fracasso de seu filme seguinte, “Quarteto Fantástico“, e sua postura errática no trabalho – tendo simplesmente faltado a um painel sobre spin-offs na Star Wars Celebration 2015 – levaram ao cancelamento do projeto todo ainda em 2015.

Mas afinal, o que faz um bom cineasta para a Lucasfilm?

Na mesma Star Wars Celebration 2015, Pablo Hidalgo soltou uma das frases mais célebres desta nova fase da franquia: “Boba Fett está simultaneamente vivo e morto no poço do sarlacc até aparecer uma história e tirá-lo de lá“. O exemplo deste Boba Fett de Schrödinger é o melhor possível para ilustrar o que é preciso para se fazer um “Star Wars”, pois nem só de histórias vivem os personagens dessa galáxia muito, muito distante, e espera-se mais que apenas traquejo e habilidade de quem se dispõe a contá-las.

Primeiro é preciso ter uma boa ideia. J.J. Abrams, Rian Johnson, Gareth Edwards, Colin Trevorrow, Phil Lord e Chris Miller e Josh Trank – todos tinham boas ideias. Sem uma, você sequer chega a ser considerado para o cargo. Uma vez dentro, o cineasta tem toda a estrutura da Lucasfilm e o suporte do Lucasfilm Story Group para contar uma boa história. Abrams seguiu caminhos mais tradicionais em “O Despertar da Força“, enquanto Johnson optou por quebrar paradigmas em “Os Últimos Jedi“. Mas ambos contaram suas histórias da forma que idealizaram e até voltaram em seguida – Abrams para “A Ascensão Skywalker” e Johnson para sua nova trilogia de filmes.

Segundo, adequar-se à cultura da Lucasfilm. Dependendo de como se lida com o projeto, a produtora pode ser o melhor ou o pior lugar possível para se trabalhar. No caso de Lord e Miller, todas as tentativas de fazer coisas novas que divergiam do projeto inicial em “Han Solo” recebia um “não” como resposta. Trevorrow teve dois anos para trabalhar junto a Johnson e desenvolver seu “Episódio IX” da mesma forma que Johnson e Abrams trabalharam anteriormente. Talvez sua história pudesse ter sido diferente?

Por fim, a principal lição é a de criar um ambiente que compreenda de forma séria e profissional a magnitude do que está sendo feito, mas sem perder a leveza. Não é sempre que se tem a oportunidade de desenvolver o próximo “Star Wars”, então é preciso aproveitar, pois esse não é um projeto qualquer. No caso de Abrams e Johnson, ambos tentaram o máximo possível fazer parte dos filmes um do outro. Abrams, inclusive, ficou famoso por promover flashmobs repentinos no set de “O Despertar da Força” e por fazer rodas de beat box nos bastidores de “A Ascensão Skywalker”. Afinal, os cineastas passam, mas “Star Wars” permanecerá.

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