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Como fazer um Governo: the Italian job

Mário João Fernandes

A única coisa certa na política italiana é a capacidade de nos espantar com regularidade por via do rearranjo das peças do puzzle político.

Como Estado unificado, a Itália é uma invenção recente e ainda em construção. Até a língua italiana é um invenção recente, cercada pelos dialectos locais falados em família, no dia-a-dia e sempre que é preciso comunicar dentro da comunidade, deixando o italiano para a comunicação com os forasteiros, como língua comum em estado de necessidade, disseminada pelo serviço militar (em particular, durante o vinténio fascista) e pela televisão (no segundo pós-guerra). Já a arte da política tem vários milénios de história na península e deu ao mundo fórmulas fabulosas e cultores eméritos. A conquista do poder e a sua manutenção são uma especialidade local, praticada em todas as regiões, não sendo um exclusivo florentino. “O poder desgasta? Desgasta muito mais quem não o tem”, explicava Andreotti, o divino Giulio, sem sentir necessidade de explicar que o aforismo fora já usado por Tayllerand. Fê-lo seu pela prática e a posse vale título.

Desde a queda do fascismo que o mundo olha com condescendência para o que se passa em Itália, com maior distância desde o fim da Guerra Fria. A Itália tornou-se quase irrelevante e, com a deriva de Berlusconi, foi entregue a si própria. Mesmo a possibilidade de contaminação do euro pelo arruinado e irreformável sistema bancário e pela dívida excessiva não se verificou, muito por mérito italiano: a banca italiana compra a dívida e permanece italiana; não há, como em Portugal, que contentar credores estrangeiros.

A segunda morte dos partidos tradicionais, depois da primeira às mãos da operação Mani Pulite, chegou por via da falta de jeito de Matteo Renzi em matéria de apostas políticas. Uma tentativa de negociata com Berlusconi em torno da reforma eleitoral (garantindo um prémio de maioria absoluta ao partido mais votado), criando um rotativismo entre esquerda e direita, correu referendariamente mal e Renzi foi defenestrado. Nas eleições de 2018, os italianos votaram nos partidos fora do sistema, supostamente à esquerda, no Movimento 5 Estrelas (32%) e garantidamente na direita populista da Lega (17%). A impossibilidade de qualquer um dos respectivos líderes (Di Maio e Salvini) deixar ao outro a chefia do Governo permitiu a escolha de um não político para primeiro-ministro (Conte), entalado entre os dois vices. Este arranjo durou 500 dias até Conte, forçado por Salvini, praticar o único acto para que foi escolhido, apresentando a demissão. No entretanto, Salvini aparece nas sondagens com 40% das intenções de voto e o M5S com 15%… Salvini quer eleições antecipadas e vê-se a governar ou com uma maioria absoluta ou com uma coligação de direita, seja minimalista, com os Fratelli d’Italia (os heróis do mar locais, reciclados do Movimento Social Italiano e da Aleanza Nazionale), ou mais alargada, com o que sobrar da Forza Italia de Berlusconi.

Instalado o pânico, o Partito Democratico (a pedra filosofal que juntou democratas cristãos e comunistas depois da Mani Pulite) anunciou a disponibilidade para formar Governo com o M5S, chefiado por um “técnico” independente (no dia de hoje, as apostas apontam para a prof.a Marta Cartabia, vice-presidente do Tribunal Constitucional).

Um Governo PD (19% dos votos em 2018) com o M5S arrisca-se a ser tão bom quanto o Governo Conte. Entre a vacina da ida de Salvini para PM já em Outubro, sujeitando-se à erosão do poder, ou a garantia de uma maioria absoluta nas próximas eleições, venha o Diabo e escolha.

 

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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