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Como fazer sexo ético com estranhos nas férias

Como fazer sexo ético com estranhos nas férias

“Se você me dissesse em 2017 que eu passaria os dois anos seguintes visitando vários resorts adultos onde usar roupa é opcional, eu provavelmente não acreditaria”, disse Simone Paget, uma colunista do Toronto Sun de 30 e poucos anos. “Sou o tipo de pessoa que nem gosta de se trocar no vestiário da academia.”

Mas Paget está achando suas experiências de sexo em viagens “libertadoras”, ela disse, depois de se sentir deslocada procurando sexo queer na sua cidade. Segundo ela, em sua comunidade “a bifobia é muito real – as pessoas acham que só estou ‘experimentando’”. Seis meses depois de se assumir, ela fez sua primeira viagem sozinha para o Temptation Cancun Resort, um hotel só para adultos com áreas de topless opcional. As experiências de viagem de Paget permitiram a ela experimentar com sua sexualidade em seus próprios termos. “Conheci outras mulheres que, como eu, não queriam necessariamente definir seus desejos de um jeito ou outro”, ela disse. “Eu podia ficar com um homem num dia e uma mulher no outro, e ninguém ligava. Foi uma revelação pra mim.”

Viajar para fazer sexo tradicionalmente era algo reservado para homens ricos, brancos e moralmente ambíguos em busca de aventuras sexuais com estrangeiros “exóticos”, ou, em outros casos, mulheres brancas de meia idade recém-divorciadas. Nos últimos anos, um número crescente de mulheres dos EUA está viajando para o exterior, e muitas estão viajando especificamente para fazer sexo. Viajantes sexuais são mais jovens e queer que nunca, eles não são todos brancos, e muitos preferem viajar sozinhos.

Encontrando seus próprios meios de liberação sexual, esses viajantes sexuais estão lidando com uma prática que é tradicionalmente colonialista, racista e classista – e encontrado maneiras mais éticas de viajar com tesão do que solicitar trabalhadores sexuais na Ásia, África e Caribe, onde o turismo sexual abastece as economias locais. Raquel Rosario Sanchez, escritora feminista e candidata a Ph.D do Centro de Pesquisa de Gênero e Violência da Universidade de Bristol, explicou que o turismo sexual tradicional muitas vezes é abastecido por fetichismo racial e imperialismo. “Você escolhe um destino em particular com a intenção de pagar locais por sexo para satisfazer um fetiche”, ela disse. “Isso joga na mistura todo um conjunto de dinâmicas que problematizam um relacionamento já desigual.”

Turismo internacional para qualquer propósito, sexual ou não, pode ser eticamente dúbio quando vem com altos custos ambientais e de infraestrutura em muitas áreas do sul global. Mesmo que viagens adultas não sejam exceção, navegar o sexo em si em outro país com cuidado e respeito não é impossível. Segundo Sanchez: “O jeito ético de um turista branco navegar essa questão é fazer sexo apenas com pessoas sexualmente atraídas por ele, não com pessoas que precisam ser convencidas com dinheiro”. Viagens sexuais mais éticas também se estendem a pensar criticamente sobre fetichização. Antes de se envolver com alguém num país estrangeiro, Sanchez aconselha viajantes sexuais a questionar ideias preconcebidas que podem ter e examinar suas motivações para procurar sexo em outro país: “O que uma mulher dominicana supostamente faz sexualmente que você não consegue com uma parceira com consentimento na Finlândia?”

Alguns resorts têm limites rígidos em se tratando de consentimento e interação sexual entre hóspedes e equipe, com o objetivo de reduzir qualquer possível coerção. “Criar um ambiente seguro é crucial”, disse Patric Loeser, gerente-geral do Temptation Cancun Resort, e isso se estende ao tratamento dos hóspedes para com os funcionários. Loeser disse que toda a equipe foi treinada para rejeitar avanços sexuais dos hóspedes – e que alguns funcionários supervisionam qualquer má conduta contra seus colegas. “Nossos ‘juízes’ estão sempre observando e prontos para interceptar hóspedes se comportando de maneira inapropriada, seja com outros hóspedes ou funcionários, e eles podem colocar essas pessoas no ‘banco’”, ela disse.

Muitos destinos adultos recebem hóspedes de todas as orientações sexuais, criando espaços seguros para mulheres queer que viajam para fazer sexo. A fundadora do Bi Girls Club de Nova York e escritora Gabrielle Noelle visitou um resort jamaicano, Hedonism II, que recebe grupos de viagem LGBTQ, festas de swing e festivais, semana passada. “Todo mundo era tão simpático e estava confortável, parecia quase outro planeta”, disse Noelle. “Senti muito menos vergonha e dúvida surgindo.” Noelle também passou um tempo na “play room” do resort, uma área designada para casais, mulheres solteiras e homens convidados fazerem sexo – uma experiência que ela não se sentia livre para buscar em seu país.

Mas em certos momentos, Noelle se sentiu objetificada como uma mulher bissexual entre muitos casais héteros cheios de tesão visitando o resort. “Sempre que a namorada de alguém tentava me envolver num ménage, eu ficava puta”, disse Noelle. “Tinha muitas mulheres bissexuais presentes, mas havia essa cultura do ‘unicórnio’.” Apesar de resorts lésbicos nos EUA estarem praticamente extintos, quem busca evitar caçadores de unicórnio pode se tornar membro de organizações como o Skirt Club, que realiza encontros casuais e festas de sexo para mulheres nos EUA e outros países.

Patrice J. Williams, uma escritora negra de 30 anos de Nova York, gosta de viagens a destinos de roupa opcional porque se sente livre para usar – ou tirar – o que quiser. “Quando estou na minha cidade, posso estar voltando da academia toda suada, mas ainda assim os homens me assediam. Fiquei extremamente confortável sabendo que podia estar totalmente nua e os homens não achariam que eu estava fornecendo um convite para sexo”, Williams disse a VICE sobre sua visita ao Hedonism II. Williams também passou um tempo na play room, mesmo dizendo que preferiu só observar. Isso informou seus encontros no geral, ela disse. “Minha experiência me deixou mais disposta a expressar abertamente minhas curiosidades e ouvir sobre o estilo de vida das outras pessoas.”

Willians apontou que alguns resorts adultos podem ser esmagadoramente brancos. Mesmo entre outros viajantes nus, Williams se preocupava em atrair atenção indesejada como uma das poucas mulheres não-brancas em um dos resorts que ela visitou. “Minha experiência no geral foi ótimas, mas às vezes eu estava consciente demais do olhar branco, e que eu estava nua na frente de pessoas que provavelmente nunca tinham visto um corpo negro ao vivo antes”, ela disse.

“Como mulher negra, agora já espero isso”, disse Bianca Lambert, escritora e atriz de 33 anos de Los Angeles que também visitou o Hedonism II. “Já tive que ouvir de um homem branco ‘Nunca fiquei com uma mulher negra antes’, como se fosse alguns tipo de elogio ele estar me dando uma chance”, ela disse. “Às vezes nem é preciso dizer nada. Você sente isso quando as pessoas te encaram, especialmente minha bunda e cabelo”, disse Lambert. “Olho pra essas pessoas tipo ‘Estou te vendo. Não diga nada idiota’, e sigo em frente. Se eu parasse para abordar toda pessoa seria exaustivo, e como mulher negra, já estou muito cansada.” Lambert apontou que a experiência específica de mulheres negras, pessoas LGBTQ e pessoas não-brancas ainda pode ser um ponto cego para a indústria.

“Os destinos podem acomodar melhor pessoas queer criando programas LGBTQ mais específicos, treinando a equipa para usar linguagem inclusiva de gênero, e não realizando programação apenas dentro do binário de gênero”, acrescentou Noelle. “Muitas vezes eles se referem a pessoas que ‘vão nas duas direções’ ou sugerem pessoas que gostam de homens ou mulheres. Simplesmente mudar sua linguagem para reconhecer mais gêneros já seria muito legal.”

Noelle recomendou que outros jovens viajantes, especialmente aqueles que não são héteros ou brancos, confiram a programação dos resorts de eventos queer e POC-friendly oferecido. “No geral, me diverti muito. Só posso imaginar como me divertiria ainda mais se tivesse uma semana povoada por mais pessoas jovens, não-brancas e bissexuais”, disse Noelle.

Independente de onde e com quem uma pessoa se envolve numa viagem de sexo, Sanchez disse que é imperativo abordar parceiros em potencial com respeito, não como uma novidade ou commoditie. “É tentador visitar um lugar com ideias preconcebidas das pessoas lá e procurar evidências para confirmar essas ideias”, disse Sanchez. “Tanto mulheres como homens podem ser viajantes sexuais éticos e viajantes éticos no geral, quando estão dispostos a desafiar suas ideias, e sempre reconhecer a humanidade da outra pessoa.”

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