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Como fazer para acontecerem coisas boas

Como fazer para acontecerem coisas boas

“Compreenda o seu cérebro, gira as suas emoções, melhore a sua vida”. À primeira vista, o subtítulo do livro Como Fazer Para Acontecerem Coisas Boas [ed. Planeta], da psiquiatra espanhola Marian Rojas Estapé, pode parecer apenas mais um chavão típico de um livro de auto-ajuda. Mas não é. É mesmo isso que este livro nos ajuda a fazer, se o lermos com atenção. Psicoterapia pura para ter à mesa de cabeceira. Sem paternalismos nem ideias fofinho-pirosas de que a felicidade está ao virar da esquina e só depende de si. Mas sim, depende muito de si. Perceber-se, perceber como as suas emoções e pensamentos influenciam a sua saúde física e mental e perceber como geri-los para viver melhor. O livro, da editorial Planeta, é lançado hoje e nós fazemos a pré-publicação do capítulo 3, dedicado ao cortisol (a hormona do stress).

Como Fazer Para Acontecerem Coisas Boas, da psiquiatra espanhola Marian Rojas Estapé, estará nas livrarias a partir de 7 de janeiro, com a chancela da editorial Planeta [p.v.p. 17,75 euros]

Capítulo 3

Pensar altera o nosso mundo interior. Imagine que está num cinema ou teatro e ouve alguém gritar:
– Fogo!
De imediato, ficaria alerta e correria em desespero para a saída mais próxima.

Que acontece, nesse momento, no seu corpo? O organismo sobressalta-se e envia um sinal ao hipotálamo que, por sua vez, activa outras zonas do cérebro. Começa uma resposta involuntária do organismo através de sinais hormonais e nervosos (a mente, por vezes, ainda não tomou consciência do perigo) como taquicardias, sudação e subida de temperatura, que já todos sentimos. Esta informação passa pelo tálamo e pelo córtex cerebral, onde se processa, de modo cognitivo, a informação recebida e se decide, na medida em que a sensação de medo o permite, como dar resposta a ameaça.

A seguir as glândulas supra-renais, localizadas por cima dos rins, depois de receberem o sinal do hipotálamo, libertam uma série de hormonas das quais se destacam a adrenalina e o cortisol.

Conheça o seu companheiro de viagem

Aqui, apresento-lhe um companheiro de viagem crucial na sua vida. Depois da leitura das próximas páginas, vai compreender por que lhe acontece o que acontece, vai entender alguns momentos da sua vida e os comportamentos de muitos dos que o rodeiam.

Preste especial atenção a este capítulo.

O cortisol em si não é mau, o que é prejudicial para o organismo é o seu excesso.

Prossigamos o nosso relato. Continuamos no cinema. Se não contássemos com o cortisol, é provável que ficássemos sentados na nossa poltrona, a usufruir do espectáculo de fumo e chamas. O cortisol é, assim, fundamental para a sobrevivência.

Imagine, em vez disso, a situação real. Levanta-se com taquicardia, hiperventilação e sensação de angústia e tenta encontrar a saída mais próxima. Vê a cara de medo dos que o rodeiam, custa-lhe pensar com clareza. Por fim, consegue chegar a rua, a transpirar e com o corpo a tremer. Já na rua, alguém lhe diz para não se preocupar, que estavam a consertar os alarmes e dispararam sem motivo, pois não há qualquer incêndio. Nesse instante, reabrem as portas e dez minutos depois os espectadores voltam a ocupar os seus lugares. Certo, todo o público regressa à situação anterior, mas na realidade ninguém se encontra nas mesmas condições fisiológicas e mentais em que estavam antes de soar o alarme.

Porquê? Esse pico de cortisol que experimentámos demora várias horas a desaparecer, a regressar ao nível normal. Com certeza, já lhe aconteceu alguma vez a conduzir. Alguém se cruza consigo com uma manobra perigosa, não lhe bate, não acontece nada, mas o seu organismo percebe a ameaça e o seu corpo sente uma dor no peito. Mas… não aconteceu nada. É o sinal de alerta do seu corpo.

Qual é a função do cortisol?

» O cortisol afecta, de um modo profundo, inúmeros sistemas do organismo. Com o cortisol elevado preparamo-nos para sair a correr, o sangue viaja dos intestinos até aos músculos para nos ajudar e potenciar a acção evasiva ou defensiva, por isso perdemos o apetite nos momentos de angústia. Os sentidos activam-se («Tenho os nervos a flor da pele») e tentam identificar qualquer estímulo que ajude a reconhecer a ameaça intuída. Os músculos recebem sinais necessários, tanto nervosos como bioquímicos, para se prepararem para fugir do perigo ou para a luta. O cortisol ajuda o oxigénio, a glucose e os ácidos gordos a conseguirem cumprir as respectivas funções musculares. O ritmo cardíaco acelerado faz que o coração bombe mais depressa e assim facilita o transporte do sangue e dos nutrientes até aos músculos para que estes possam responder face a eventual ameaça.

» O cortisol, pelo seu lado, inibe a secreção de insulina, provoca a libertação de glucose e proteínas para o sangue. Por isso, se o cortisol não está bem regulado, a curto prazo pode surgir a temida diabetes.

» Esta hormona ajuda a regular o sistema osmótico do corpo, água-minerais. É essencial no controlo da tensão arterial, participa nos ossos (o cortisol pode favorecer o aparecimento da osteoporose) e até nos músculos (contracções, esticões, cãibras).

» O cortisol tem uma função essencial: afecta profundamente o sistema imunitário e inibe, em primeiro lugar, a inflamação. Mais à frente, vamos tratar o assunto com mais pormenor porque é imprescindível para compreender o aparecimento de algumas doenças graves. Face ao stress, o organismo doseia os seus recursos energéticos. O sistema imunitário precisa de uma grande quantidade de energia, por isso, quando adoecemos, sentimo-nos esgotados. Em grande parte, a sua energia está a ser canalizada e utilizada pelo sistema defensivo.

» Por fim, altera a nível endocrinológico vários sistemas:
– Sistema reprodutivo, por isso o stress e o sofrimento podem alterar o ciclo normal da mulher ou a aptidão para engravidar.
– Sistema de crescimento ao inibi-lo.
– Sistema tireoidiano, com a aparição de alterações (tanto hiper como hipotiroidismo) ou após outras doenças relacionadas com a tiróide.

A tudo isto soma-se um factor relativo ao crescimento do corpo. Perante uma ameaça iminente, o seu corpo precisa de toda a energia possível. Por isso paralisa e bloqueia tudo o que é dispensável, incluindo o que tem a ver com o crescimento. Todos os dias morrem milhões de células e o corpo humano precisa de uma regeneração celular todos os dias, mas se interferimos, pelo stress, nesse crescimento, o corpo adoece porque perde células que não consegue substituir.

Que acontece se voltar ao local do evento traumático?

Algum tempo depois, regressa ao mesmo lugar. Senta-se numa poltrona e, de repente, sem saber porquê, está alerta. Levanta-se e, com o olhar, perscruta algum lugar, próximo da porta de emergência. Analisa bem o local e muda de lugar para se sentir mais perto da saída. Acontece que está a reviver a angústia do passado. O seu corpo, nesse momento, está a gerar a mesma quantidade de cortisol que produziu quando «na verdade» soou aquele alarme.

A mente e o corpo não distinguem o real do imaginário.

O cérebro altera em profundidade o nosso equilíbrio interior. Quando pensamos em algo que nos preocupa, esses pensamentos têm um impacte idêntico à situação real. Sempre que imaginamos algo que nos angustia, o mesmo sistema de alerta activa-se no organismo e liberta o cortisol necessário para enfrentar essa ameaça.

Que sucede se vivemos sempre preocupados com algo?

As preocupações ou a sensação de perigo prolongada – real ou imaginária – podem aumentar os níveis de cortisol até cinquenta por cento acima do recomendável. Este é um dado fundamental para entender o stress: o corpo não desperta apenas face a um perigo real ou ameaça, também se activa (do mesmo modo) perante a inquietação de perder o trabalho ou os bens ou ante a possibilidade de perder o prestígio ou uma amizade ou posição na sociedade ou num grupo específico.

O cortisol é uma hormona cíclica. Durante a noite o nível é baixo, ascende até ao máximo às oito da manhã e começa a descer de maneira progressiva. A libertação do cortisol possui um padrão que, de um modo geral, segue o ritmo da luz: liberta-se mais ao amanhecer, o que se torna benéfico para termos energia pela manhã, decresce ao longo do dia e aumenta ligeiramente ao anoitecer.

Quando o cortisol aumenta de forma crónica passa a comportar-se como um agente tóxico.

O stress é um dos factores predominantes que articula a resposta inflamatória do organismo. Através dos três principais circuitos – endócrino, imunitário e neuronal – o stress provoca modificações substanciais no correcto funcionamento dos sistemas envolvidos no processo inflamatório.

» No endócrino, o organismo responde com a activação de libertação do cortisol e da norepinefrina. Se alguém se «intoxica» por cortisol no sangue, produz-se uma alteração da resposta inflamatória.

» O sistema imunitário também possui uma relação importante com a resposta inflamatória. As células de defesa, que, na sua membrana, possuem receptores específicos para o cortisol, tornam-se mais sensíveis e deixam de controlar de forma tão específica a inflamação.

» O sistema nervoso é responsável por elaborar e coordenar a resposta perante uma ameaça ou perigo. O cérebro, mediante o sistema nervoso periférico (o sistema nervoso simpático possui uma importante função) ajudado pelo sistema hormonal (cortisol), põe em alerta o resto do corpo. Estes sinais vão permitir as alterações do organismo que referimos para se adaptar a esse perigo. Se o stress se torna tóxico, os mecanismos de adaptação e reacção saturam e podem levar a um bloqueio neurológico que resulte em diversas enfermidades.

Assim, uma pessoa sob stress contínuo sofre sobretudo dois problemas: o crescimento e regeneração saudáveis do corpo detêm-se e, por outro lado, o sistema imunitário inibe-se progressivamente.

Entender o sistema nervoso

O sistema nervoso vegetativo é formado por um conjunto de neurónios que regulam as funções involuntárias. Por sua vez, este sistema subdivide-se no sistema nervoso simpático e no sistema nervoso parassimpático, dois sistemas antagónicos, o primeiro, relacionado com a acção e o segundo, com o descanso.

O sistema nervoso simpático

Está relacionado com o instinto de sobrevivência, com o comportamento que se activa nos momentos de alerta. Põe em andamento mecanismos de aceleração e força da contracção cardíaca, estimula a erecção capilar e a transpiração. Facilita a contracção muscular voluntária, provoca a dilatação dos brônquios, o que favorece uma rápida oxigenação, propicia a compressão dos vasos sanguíneos e assim redirecciona o fluxo sanguíneo das vísceras até aos músculos e ao coração. Provoca a dilatação da pupila para captar melhor o que nos rodeia e estimula as glândulas supra-renais para a descarga de adrenalina e cortisol. Tudo isto é importante para nos mantermos alerta em situações novas, nas quais sentimos incerteza ou naquelas em que a nossa segurança pessoal se vê ameaçada. Se a fuga tiver de acontecer, será conveniente que o sangue não se encontre no aparelho digestivo, mas nos músculos das extremidades. Para fazer a digestão teremos tempo quando nos encontrarmos a salvo da ameaça que se abate sobre nós.

O sistema simpático é, portanto, a chave na reacção de stress que se produz face ao desconhecido, o que não controlamos ou com o que não estamos familiarizados. Contudo, uma activação constante deste sistema pode tornar-se muito prejudicial para a saúde, entre outras coisas porque impede a regeneração dos tecidos que favorece o sistema parassimpático.

O sistema nervoso parassimpático

Dá prioridade à activação das funções peristálticas e secretoras do aparelho digestivo e urinário. Propicia o relaxamento dos esfíncteres para a expulsão de excrementos e urina, causa congestão dos brônquios e secreção respiratória. Fomenta a vasodilatação para redistribuir o fluxo sanguíneo para as vísceras e favorecer a excitação sexual, e é responsável pela diminuição da frequência e força da contracção cardíaca. Em geral, o sistema nervoso parassimpático está relacionado com o cuidado das células e dos tecidos, evitando ou reduzindo a sua deterioração, de modo a que possamos viver mais tempo e em melhores condições.

Os sintomas derivados desse «cortisol tóxico»

A vida actual é mais «inflamatória» do que a de outrora. O stress crónico reduz a sensibilidade das células imunitárias ao cortisol. Isto é, o sistema defensivo do organismo desactiva-se e é incapaz de lutar contra uma ameaça real. Abranda a capacidade de regulação inflamatória e, por conseguinte, o corpo é incapaz de nos defender dos perigos.

De facto, depois de situações de ameaça, medo ou tensão, activam-se substâncias – prostaglandinas, leucotrienos, citocinas – que podem tornar-se muitíssimo nocivas para os tecidos. Esta é a causa por que, nesses momentos, somos mais propensos à contracção de infecções. A quem nunca aconteceu, alguns dias depois de começar as férias, adoecer? O nosso corpo fica mais débil e cede a uma constipação, infecção urinária ou gastroenterite.

Esta alteração do cortisol-sistema imunitário chega até aos genes. Sabemos que o «cortisol tóxico» altera até os níveis mais profundos. As células «novas», chegadas da medula óssea, serão insensíveis ao cortisol desde o nascimento, o que pode ser a causa de muitas doenças e perturbações dos dias de hoje. Estamos em pleno campo de experimentação.

A simples ideia de se sentir ameaçado aumenta a produção das citocinas inflamatórias, proteínas que podem revelar-se muito nocivas para várias células do organismo, o que costuma associar-se a uma redução de células do nosso sistema imunitário e nos torna mais susceptíveis à contracção de infecções.

Ao contrário, quando, em vez de nos sentirmos ameaçados por outros, nos sentimos compreendidos e colaboramos com os outros, activa-se o nervo vago, que faz parte do sistema parassimpático.

Que acontece quando, por stress, problemas de diversa índole, temores ou tensões, o nível de cortisol permanece elevado, durante muito tempo? As pessoas que vivem num estado de stress permanente, alerta ou medo sofrem uma maior deterioração das células e um envelhecimento precoce. Sabe-se hoje que muitas doenças se produzem e irrompem após períodos de stress crónicos, nos quais as pessoas convivem com essas sensações.

O nível de cortisol, como já explicámos, sobe em circunstâncias de medo, ameaça, tristeza ou frustração. Se estamos «intoxicados» pelo cortisol, esta hormona está a inundar o sangue em vez da serotonina ou da dopamina, hormonas que têm um impacte positivo e de bem-estar no corpo e na mente.

Esta sintomatologia produz-se a três níveis: físico, psicológico e de conduta ou comportamento.

Físico

Enumero alguns: queda de cabelo (alopecia), tremor nos olhos, transpiração excessiva nas mãos e pés, ressecação da pele, sensação de nó na garganta, opressão no peito, sensação de sufoco, taquicardias, parestesias (adormecimento das extremidades), problemas e transtornos gastrointestinais, irritação do colón, dores musculares, problemas de tiróide, enxaquecas, tiques, artrites, fibromialgia.

Nas mulheres são muito frequentes as alterações do ciclo menstrual uma vez que as hormonas responsáveis por ele são particularmente sensíveis ao stress.

Por que me dói tudo?

Magoar-se, ferir-se ou cair são situações que fazem parte da vida de qualquer pessoa. O organismo responde a esses acidentes com activação de mecanismos de autocura, entre eles a inflamação. Esta resposta é boa e saudável porque protege o corpo de infecções e de males piores, ajuda a reparar as lesões infligidas às células e aos tecidos. Essa rigidez nos músculos – que provoca com facilidade roturas musculares –, a sensação de dor constante, peso, aperto ou contracções, que todos já sentimos, têm uma explicação cuja causa, em última instância, nem sempre está no aparelho locomotor. O stress, vivido de forma crónica, a falta de exercício saudável ou a deficiente alimentação são algumas das causas dessa dor permanente. Esta é uma das razões pelas quais hoje se abusa dos AINE, fármacos anti-inflamatórios, como o ibuprofeno.

As dores musculares têm a sua origem não só em inflamações provocadas pelo mecanismo imunitário adrenal-cortisol, mas também na activação do sistema nervoso simpático que, de forma involuntária, conduz o corpo a adoptar uma postura defensiva. Por vezes, estes incómodos musculares são muito intensos na zona mandibular – transtorno da ATM, articulação temporomandibular. Produzem-se devido a um movimento constante de ranger os dentes (bruxismo), que acaba por desgastá-los e danificar a articulação das mandíbulas. O bruxismo é especialmente intenso durante a noite. Para solucionar este problema, hoje é muito comum dormir com aparelhos específicos.

Psicológico

Há uma alteração nos padrões do sono (mais à frente falaremos dele), irritabilidade, tristeza, incapacidade para sentir prazer, apatia, abulia. Num estado de alerta permanente surgem falhas de concentração e/ou de memória, por exemplo. A ansiedade constante é a rampa de lançamento para a depressão. Muitas depressões surgem por se viver alerta durante largos períodos de tempo.

A memória é muito sensível aos níveis do cortisol. O hipocampo é a zona do cérebro responsável pela aprendizagem e pela memória e é afectada pelas mudanças nos níveis de cortisol. Com certeza já lhe aconteceu algo idêntico: chega a um exame, que tinha preparado mais ou menos bem, mas fica muito nervoso e não consegue fazer nada. Mas tinha estudado tanto! Explicado de forma simples: o que lhe aconteceu é que o seu hipocampo bloqueou por causa de um aumento súbito de cortisol. Esses nervos antecipatórios, cuja origem está num «e se reprovo, que vai acontecer, não me lembro, de certeza que vão perguntar o que não sei», bloqueiam o hipocampo e a memória e assim os nossos receios, no princípio infundados, tornam-se reais.

Comportamental

Com altos níveis de cortisol, a pessoa tende ao isolamento, não lhe apetece ver os amigos ou a família. Tem dificuldade em iniciar uma conversa e foge das actividades habituais. Por outro lado, mostra-se inexpressivo em actos sociais, sem vontade para fazer novos conhecimentos.

O stress fisiológico – eustress – não é mau nem tóxico, pelo contrário, constitui a resposta natural que o organismo activa face a uma ameaça real ou imaginária, imprescindível para a sobrevivência nos momentos de perigo e que nos ajuda a responder, da melhor forma possível, a um desafio. O que de facto é prejudicial sucede se, quando essa ameaça desaparece ou se revela infundada, a mente e o corpo continuam a receber a sensação de perigo ou medo.

A mente e o corpo não distinguem realidade de ficção

Esta é outra das principais ideias que quero partilhar, neste livro. O cérebro não sabe distinguir o real do imaginário. Cada vez que modificamos o estado mental – de forma consciente ou inconsciente – produz-se uma alteração no organismo seja molecular, celular ou genética. Da mesma forma, quando modificamos o físico, a mente e as emoções percebem-no. Ao longo deste capítulo, tenho vindo a insistir na importância de tomar consciência dos pensamentos. Pensar altera o nosso organismo. A mente adapta-se e reconfigura-se em conformidade com factores, circunstancias e vivências do dia-a-dia.

Um cérebro em stress é consequência de viver mergulhado em pensamentos tóxicos.

A mente tem um extraordinário controlo e influência sobre o corpo. Os pensamentos influenciam de forma directa a mente e o organismo. Se fechar os olhos e imaginar alguém que ama, num ambiente simpático, o seu corpo segrega oxitocina, dopamina. Pode mesmo chegar a sentir um calafrio, pele arrepiada ou um sem-número de sinais físicos. Os apaixonados (seria preciso um livro só para este assunto) possuem uma sensação de bem-estar emocional, psicológica e física muito forte. Se imagino algo que me assusta, como um exame, uma reunião, a possibilidade de ser despedido, a falta de dinheiro, de imediato gero hormonas de stress.

Vejamos um exemplo muito simples: feche os olhos e visualize um limão. É amarelo, ovalado… sinta-o na mão, toque-lhe bem. Aproxime o nariz. Pegue numa faca e corte-o. Que sente? Já começou a salivar? Corte um bocado e leve-o à boca, sinta o sabor, ouse dar-lhe uma dentada. Abra os olhos, claro que o limão não está aí, mas o seu corpo reagiu como se estivesse. A imaginação tem um poder impressionante sobre a mente.

Os pensamentos exercem um enorme poder sobre o seu cérebro e sobre o seu corpo. Se está sempre a mostrar à mente um acontecimento passado ou um possível evento negativo do futuro, o cérebro entende que é aí que se quer situar, onde quer focar-se. Que se produz? A atenção fica viciada, presa a pensamentos tóxicos do passado ou do futuro, isto é, a mente não consegue gerir e dirigir a atenção de forma correcta. Para entendermos de forma mais visual, cada vez que pensamos em algo negativo, angustiante ou nocivo, o cérebro recebe um sinal para elaborar circuitos neurais especializados que nos retêm nessas ideias. A mente não distingue o real do imaginário. Veremos mais à frente directrizes concretas para reeducar os pensamentos e dominar a corrente de ideias negativas que bloqueiam a nossa mente.

Alimentação, inflamação e cortisol

Há quem diga que somos o que comemos. Eu sou mais partidária de «somos o que sentimos, pensamos e amamos», mas tenho consciência que a alimentação tem um papel fundamental na saúde. Sabemos que alguns alimentos têm uma relação muito directa com doenças graves, como seja o cancro e, portanto, não é algo que devamos menosprezar. Nos últimos anos, os hábitos alimentares modificaram-se consideravelmente. Nos dias de hoje, segundo dados de especialistas em nutrição, o nosso organismo ingere mais trinta por cento de alimentos pró-inflamatórios do que há alguns anos.

As pessoas com inflamação crónica possuem níveis abaixo dos recomendados de algumas vitaminas – D, E e C –, e de ómega 3. Por outro lado, a inflamação persistente altera a barreira intestinal e promove uma maior permeabilidade a certas substâncias, o que prejudica o sistema imunitário e pode mesmo provocar más disposições e reacções negativas, após a ingestão de alguns alimentos.

Os alimentos que activam a inflamação têm enorme relação com a libertação de insulina pelo pâncreas. Entre os «suspeitos habituais» encontram-se o álcool (sobretudo em quantidades elevadas), gorduras saturadas, bebidas açucaradas e farinhas refinadas, em especial as utilizadas na doçaria industrial.

Cuidado com a CRI, a «comida rápida inflamatória». Segundo um estudo recém-publicado em Harvard, as mulheres com alimentação rica em produtos inflamatórios – farinhas brancas, gorduras saturadas e trans saturadas, bebidas açucaradas e carnes vermelhas – têm um risco quarenta e um por cento mais alto de padecer de depressão. É preciso voltar aos alimentos que tem efeitos anti-inflamatórios, como:

» Ómega 3 (analisado em pormenor no capítulo 8).
» Algumas especiarias, como a curcuma, que possuem um efeito anti-inflamatório muito forte.
» Citrinos.
» Vitamina D. Há cada vez mais estudos que associam a depressão aos baixos níveis de vitamina D. Os psiquiatras, entre os quais me incluo, estão a começar a avaliar os níveis da vitamina D em pacientes e observamos uma melhoria nos sintomas depressivos após o tratamento com vitamina D.
» Cebola, alho-francês, salsa, louro e alecrim. Com efeito, em algumas lesões de pé ou tornozelo, mergulhar o pé na água com louro e alecrim traz bons resultados na diminuição da inflamação.

Que papel tem o aparelho digestivo na inflamação?

Há alguns anos, propuseram-me realizar um estudo sobre probióticos, flora intestinal e a sua relação directa com o estado emocional ou mental. Recolhi muita informação, analisei artigos e publicações sobre o tema. É uma área apaixonante e com muito futuro e, nos últimos anos, têm-se multiplicado os estudos a esse respeito.

Existe uma ligação muito grande entre o cérebro e o intestino. O aparelho digestivo, que vai do esófago até ao ânus, é revestido por mais de cem milhões de células nervosas, equivalente a todas as existentes no sistema nervoso central-cérebro, cerebelo-tronco. Por outro lado, dentro do tubo digestivo contamos com mais de cem biliões de microrganismos. Possuem uma função importante no processamento dos nutrientes e alimentos e libertam grandes quantidades de moléculas no intestino. Estas podem mesmo actuar no organismo de forma essencial.

Estas investigações são recentes e em muitos aspectos estão ainda a dar os primeiros passos, mas os primeiros estudos publicados a esse respeito, com experiências com ratos, mostram que a carência de flora bacteriana tem uma grande repercussão no organismo, incluindo no cérebro. Está a prestar-se especial atenção à relação causa-efeito entre determinadas mudanças bruscas na flora bacteriana e alterações simultâneas do estado de espírito ou conduta do paciente.

As teorias são diversas. Uma revisão publicada em 2015 (Kelly et al.) sugere que os défices na permeabilidade do intestino podem ser a causa da inflamação, que se revela nas mudanças de ânimo. Por outro lado, pretende-se que alguns microrganismos segregam substâncias que desempenham o trabalho de neurotransmissores no cérebro. Por fim, há quem especule que algumas das substâncias produzidas por esses microrganismos do tubo digestivo afectam o sistema imunitário ou o sistema nervoso.

A microbiota desempenha um papel fundamental na regulação da permeabilidade intestinal e no componente inflamatório da depressão.

A serotonina, hormona da felicidade e bem-estar, do apetite, da líbido e de inúmeras funções da mente e do corpo, é a responsável pelos estados de ansiedade e depressão. Seria um erro reduzir a depressão aos níveis de serotonina cerebrais. Cerca de noventa por cento da serotonina do corpo produz-se no intestino, o restante no cérebro.

Existem cada vez mais investigações sobre os probióticos e o estado de ânimo. Em Dezembro de 2017, foi publicado um estudo na revista Brain, Behavior and Inmunity sobre como os probióticos contrariam tendências depressivas. Na Universidade de Aarhus, os investigadores evidenciaram os benefícios dos probióticos não apenas na saúde intestinal, como também no estado de espírito.

Há uns meses, foi publicado um estudo liderado pela doutora Nicola Lopizzo que relaciona a doença de Alzheimer com a inflamação e a microbiota. Observou que estes doentes possuem uma microbiota diferente da dos indivíduos saudáveis que participaram na experiência. Nos nossos dias defende-se que a inflamação tem um papel essencial no desenvolvimento e evolução da doença de Alzheimer. Pensa-se que esta inflamação possa ser influenciada pela microbiota. Tudo isto constitui um campo apaixonante que nos impulsiona a seguir a investigação neste sentido.

Podemos considerar a depressão uma doença inflamatória do cérebro?

Depois de tudo o que lemos e compreendemos até agora, sabemos que existe uma relação forte entre a inflamação, em especial a crónica, e as doenças. Mas o que acontece com a depressão? Que papel desempenha a inflamação nos processos depressivos?

Nos últimos anos, têm-se levantado várias vozes no mundo da ciência para explicar estas relações, o que para mim é apaixonante. Em Fevereiro de 2018, a equipa do doutor Meyer publicou, na prestigiada revista Lancet, a primeira prova científica do papel da inflamação na depressão. Após examinar exaustivamente imagens – com técnica de emissão de positrões, conhecida por PET (siglas em inglês) – onde pessoas que tinham sofrido durante anos de depressão mostravam alterações no cérebro, com um aumento das células inflamatórias ou seja, um excesso da resposta imunitária.

Por outro lado, observou-se que após a administração de alguns fármacos imunomoduladores, como pode ser o interferonα (INF-α) para o tratamento da esclerose múltipla, melanoma, hepatite C e outras doenças, muitas dessas pessoas apresentavam sintomatologia depressiva de forma comórbida.

Que acontece com as crianças que sofrem violência, traumas, maus-tratos e bullying?

Estudos recentes (Cattaneo, 2015) sugerem que o stress na infância – bullying, separação dos pais, abuso físico ou psicológico – provoca processos inflamatórios que podem tornar as crianças mais vulneráveis ao sofrimento de perturbações de ânimo, maior vulnerabilidade e mesmo propensão para depressão, na idade adulta. Nos nossos dias, isto pode «medir-se» no sangue. Não podemos esquecer que um dos principais problemas no diagnóstico e tratamento da depressão é a falta de marcadores que permitam enfrentá-la de forma mais personalizada e específica. Um dos parâmetros mais fiáveis neste aspecto é a proteína C reactiva no sangue.

A proteína C reactiva (PCR) elevada no sangue está relacionada com a falta de energia, alterações do sono e apetite.

É normal que a doentes que não reajam aos antidepressivos conhecidos se lhes apresentem outras alternativas. Uma solução pode ser a de medir os níveis de marcadores inflamatórios como a IL-6, o TNF-alfa e a PCR (proteína C reactiva). Sabe-se que podem encontrar-se marcadores fiáveis no diagnóstico e seguimento da depressão: as pessoas que sofrem de depressão possuem a proteína C reactiva quase cinquenta por cento mais elevada do que as outras.

A inflamação crónica, mantida num nível baixo, tem um papel fundamental na possibilidade de desenvolvimento de depressão e psicose.

Em Outubro de 2016, foi publicado um artigo na revista Molecular Psychiatry pelo doutor Golam Khandaker do Departamento de Psiquiatria de Universidade de Cambridge que estudava os efeitos da aplicação de anti-inflamatórios sobre a depressão. Foram aplicados fármacos anticitocinas – antimoléculas inflamatórias – para tratar doenças inflamatórias auto-imunes. Perante os resultados, e após análise dos efeitos secundários, concluíram, com surpresa, que existia uma melhoria dos sintomas depressivos.

Os tratamentos farmacológicos estão longe de ser infalíveis. Um terço dos pacientes não responde aos antidepressivos que estão no mercado. Face a esse vazio, a inflamação parece um elemento essencial em muitas pessoas que sofrem de depressão. Quem sabe se, num futuro não muito longínquo, será possível associar fármacos anti-inflamatórios a pacientes resistentes ao tratamento convencional da depressão. Estaríamos a falar de inflamatórios biológicos, idênticos aos que se usam nas doenças auto-imunes, anticorpos monoclonais anticitocinas.

Cerca de um terço dos pacientes que não reagem aos antidepressivos convencionais mostram claros sintomas de inflamação.

Em jeito de resumo:

» A depressão aparece relacionada com uma inflamação crónica de baixo grau, associada a uma activação do sistema imunitário (por causa de citocinas e outras substâncias).

» A depressão revela-se, com frequência, nas doenças inflamatórias, cardiovasculares e no cancro.

» A administração de alguns fármacos imunomoduladores provoca sintomatologia depressiva.

» As pessoas que sofrem de diabetes tem o dobro do risco de sofrer de depressão.

» Hoje sabemos que o stress, o tabaco, as alterações digestivas e os baixos níveis de vitamina D andam associados a uma resposta inflamatória. A inflamação não só fomenta o início da depressão, como é um factor-chave na sua reacção e enfraquecimento.

» A inflamação é um processo essencial na depressão. Deve ser tida em conta em diferentes fases: como marcador da doença, mas também como resposta ao tratamento. Pode ser útil realizar um seguimento dos níveis de inflamação no decurso do tratamento para observar as possíveis resistências ou reacções ao mesmo.

» O estudo da inflamação abre-nos um mundo novo de possibilidades no tratamento das depressões resistentes aos tratamentos convencionais.

» É essencial para compreender e associar sintomas e distúrbios orgânicos coexistentes (doenças cardiovasculares-depressão, ansiedade crónica-distúrbios endócrinos, etc.)

» Quando adoecemos, geramos substâncias que avisam o corpo que algo não funciona: as famosas citocinas. Na depressão os níveis de citocinas aumentam de forma significativa. Noutras doenças mentais, como por exemplo a perturbação bipolar, sabemos que, em fase de remissão, os níveis de citocinas estabilizam.

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