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Cleo: Sem meme, link e emoji. Como fazer uma declaração de amor? – Revista Glamour

Cleo: Sem meme, link e emoji. Como fazer uma declaração de amor? - Revista Glamour

Quem nunca alimentou aquela relação com um crush virtual que dá um frio na barriga e uma palpitação diferente a cada teclada? Eu garanto que todos nós – seres humanos com acesso a Internet e que já internalizaram as redes sociais no cotidiano – já vivemos, vamos viver ou estamos vivendo agora uma relação assim.


Cleo (Foto: Rodolfo Magalhães)

Sim, ela tem o mesmo encanto das paixões platônicas, mas está ali se concretizando em bytes, com o afeto sendo retribuído a cada link compartilhado, com as memórias sendo criadas no histórico do computador.  Duas pessoas que talvez nunca se falariam pessoalmente (ou pelo menos não passariam de um “oi”) tendo a oportunidade de se conhecerem mais, criando vínculos a cada confidência que jamais teriam coragem de falar cara a cara.

Uma relação plenamente ao vivo jamais poderá competir com tantas ferramentas. Nossos perfis nas redes sociais são como máscaras que cuidadosamente enfeitamos, e isso não precisa ser visto apenas com olhares negativos. Nem tampouco é meu interesse abordar o tema por esse viés, já que dando um Google você encontra na internet milhões de artigos falando mal da própria Internet (uma autodepreciação formidável).

As máscaras podem ser usadas para qualquer finalidade. Com uma máscara você protege a sua identidade, e com isso você pode desde assaltar um banco a curtir um Carnaval livre de julgamentos. Nas redes estamos expostos a pessoas que não conhecemos, mas ao mesmo tempo protegidos pelo controle que temos da nossa imagem. Ali conversamos com gente que está do outro lado do mundo, nos permitimos ser. Há aqueles que, quando passam para o “ao vivo”, travam, não desenvolvem, e nunca conseguem estender uma conversa por mais de dez minutos sem deixar um elefante cair na sala.


Cleo (Foto: Rodolfo Magalhães)

Aqui entra um relato pessoal, já que considero que o que devemos discutir não é a liberdade de interação nas redes, mas como, COMO manter essa liberdade e autoconfiança fora delas e COMO usufruir dessa liberdade com responsabilidade e coerência com nossos estados emocionais. Olhar nos olhos de uma pessoa pela primeira vez após construir uma ligação virtual com ela é de fazer o corpo tremer, as mãos suarem e a voz falhar. Já passei semanas conversando diariamente com alguém pela Internet, e quando via pessoalmente, lá estava um enorme elefante de gelo entre nós.

Acredite, no quesito “primeiro encontro” eu faço parte da ala tímida do rolê, e também travo nas primeiras interações não virtuais. Por mais que a gente possa manipular e escolher a dedo nossa imagem virtual, o que acho mais genial dos chats é o tamanho das fotos. São minúsculas, vistas de celulares menores ainda. Chega um ponto da conversa que você não está mais focado em nenhuma aparência possível do interlocutor, fica só o assunto mesmo, e a ideia que você começa a construir de quem é a outra pessoa. Quando parte pro ao vivo, as inseguranças com a aparência com o timing da conversa imperam. Como manter dez minutos de conversa sem poder usar links para alimentar assuntos, memes pra quebrar o gelo, indiretas por emojis e nenhum outro recurso virtual possível? Sem meme, link e emoji, como fazer uma declaração de amor?

Não adianta pensar em como era à moda antiga. A Internet é a nossa ferramenta de hoje, mas acredito que nós humanos sempre criamos mediações para evitar o “cara a cara” assim de primeira. É um aprendizado de uma vida inteira entender que ali do outro lado tem só mais uma pessoa, com inseguranças como você, com problemas como você. Não necessariamente igual, mas de carne, osso e paranoias como a maior parte da população mundial. Cabe entender que toda história escrita pelas ondas do wi-fii é apenas um prólogo, uma pitada.

Conhecemos a história de centenas de casais que ficaram um longo tempo juntos depois de se conhecerem virtualmente, mas conhecemos milhares que não. E não apenas casais. Muitos amigos se conhecem e criam fortes laços através das redes sociais. Vamos refletir sobre o que nos impede de projetar toda afeição que construímos online para os encontros offline? Pensar sobre o que fazemos nas redes e não temos coragem de fazer ao vivo? Dá para crescer muito com essa autoanálise. Não importa através do que você prefira interagir, é preciso entender que sempre, sempre estamos lidando com pessoas de verdade – e que o espaço das redes não é imune à empatia, responsabilidade afetiva, e todos esses hábitos que pessoas legais cultivam.


Cleo (Foto: Rodolfo Magalhães)

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